sábado, 31 de dezembro de 2011

Desconstrução da imagem


Pablo Picasso
Ultimamente vem sendo assim : levanto-me, como algumas coisas e me dirijo ao espelho. Estático e sem piscar os olhos desconstruo em uma fração de segundo minha imagem, e contemplo o mosaico bizarro em que o eu familiar se transforma.
Por minutos prostrado, apenas com os olhos no lugar de costume, mentalmente começo a reorganizar os traços, reposicionar a boca (hoje ela foi parar debaixo do queixo, semana passada houve um dia em que era impossível distinguir se a orelha estava dentro da boca ou o nariz ao lado).
Neste exercício ou tormento ou desvario ou surto ou alucinação, seja o que for.... venho remoldando a maneira como me vejo por fora; por dentro é fácil, basta fechar os olhos no silêncio.
Terminada a reconstrução vem a parte difícil, olhar aquela imagem que se degrada a cada segundo que passa e me conformar que não sou e não serei jamais capaz de me ver com meus próprios olhos – o rosto jamais. Nunca! O mais próximo disso é poder vê-lo refletido numa superfície que me permita isso.
Quando criança, a maneira que mais apreciava em ter isso era à espera de uma refeição; pegava a colher e mirava por minutos àquela imagem distorcida e invertida (vulgo de ponta cabeça). Talvez mais divertido que qualquer brinquedo ou brincadeira. Tornava-me surdo e mudo, o mundo desaparecia enquanto me transportava àquele fantástico universo que havia dentro da colher...
De volta ao banheiro, onde me encontro quase deformado aos moldes do que devo parecer. Se chegasse onde vou como sou realmente seria um assombro. A minha liberdade é na imagem, no imaginário, no reflexo, na solidão, no isolamento. Sou absolutamente perfeito exteriormente, tudo no devido lugar aos olhos alheios; são uns ignorantes a meu respeito...
Se meus olhos fossem emprestados a alguém, talvez me vissem como sou, mas quem sou, o que sou, o que vejo somente estes olhos são capazes, já o que sinto é simples : basta olhar estes mesmos olhos e ver a clareza da iris, a escuridão da pupila e o branco que circunda, e a lágrima que sempre está pronta a escorrer, seja por qualquer coisa que me estimule : tristeza ou alegria, mas nada oriundo do que eles mesmos vêem, pois o que vêem pela manhã já me previne de ser enganado pela falsa sensação que me é a visão.

Festa de fogos


bom seria ver isso no céu... 
não ouvir os atormentantes barulhos
que preciso, pra ver um espetáculo de fogos
de pólvora
que apavora
minha hora
de silêncio
querendo pensar,
querendo sentir.
E pra terminar
citar André Abujamra:


'Ser cego do olho e surdo do ouvido
O mundo tá muito doente,
O homem que mata,
O homem que mente'

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Clear words (Palavras claras)


Estas palavras
Tão claras, pra mim
Aqueles sentimentos
Sem significados, pra mim

Agora vejo
Suas palavras
Simples como lágrimas
Como cristal, claras

Vendo esta tristeza
Mais profunda que a minha
De onde pingam
Algumas palavras de prazer

De saúde, suas palavras
Sobre esta linha
Fazem-me sentir eu, mim, meu

Estas dúvidas
Alguns destes versos
Que não gritam,
Soletram estas lágrimas
Cospem em meus medos

Suas palavras...
Esta clareza
Esta lágrima
Em linha
Minha vida

Clear words


These words
So clear to me
These feelings
No meaning to me

Now I see
Your words
Simple like tears
As crystal, clear

Seeing this blue
Deeper than mine
From where drops
Some words of pleasure

Of health, your words
Over this line
Make me feel I, me, mine

These doubts
Some verses don't shout
Spell these tears
Spit on my fears

Your words...
This clear
This tear
In line
My life

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Eu resto

Neste envelope sem selo
Contendo um apelo
Anexo ao pedido
Meus restos, sobras e raspas

Uns versos não meus
Conservo entre aspas
Dos meus cacos afiados
No esmeril chamado vida
Que arde e queima a ferida

Entrego meus restos de versos
Sentimentos reversos de apreço
Sem preço te vendo
Sem posse te dou-me

Me junta
Reconstrói
Cata-me, eu que sou resto
De tudo que sobrou
E que presto
Presto, veloz me faço teu
Querendo ser eu resto todo inteiro
Do que sou te me dou
Resto que sou

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não inferno

Não inferno
imagem de Marcelo Castro

Vejo no centro
Uma musa, garçonete obtusa
Oferece-me fogo e não fujo.
Curioso, teimo, pego e não me queimo.

Diz-me ela : ‘fique tranquilo
Aqui não é inferno,
E esse fogo que não arde
É a tua liberdade!’

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

E vi (dedicado a Ivy Brasil)


Uma pequena homenagem a colega e poeta que partiu...

E vi pouco
E vi declamar
E vi bater palmas
E vi ajudando
E vi-me a rir de uma peça

Que peça da vida
E vi
E vejo
Agora,
Ivy nos deixou...
Mas seu melhor ficou

E vi gente triste
E vi gente chorar
E vi, saudade.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estampa


Neste rosto pálido
De aparência gélida
E tanto, que as lágrimas
Estampadas nos ossos das maçãs
Congelam-se e param

Empedernido observo
Teu falso sentir
A ausência de desejo

Nem ao menos mudar
O corte de cabelo
Sem me deixar tocar-te
Secar este gelo escorrido
Deste teu falso lamento
Meu desalento, arremedo...

Como se sente fingindo não sentir
O que sente e sentindo por mim
O que finge não sentir e que diz
Não, me deixe em paz!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cansaço



Cansaço é pouco
E quando muito é demais

Estou farto de rimar
Modelo e cabelo
Passo com descompasso
Calma e alma

Minha rima me cansa e desarruma

Difícil rimar cansaço
A sílaba que quero não alcanço
Por exaustão e por ser terminada
Em repouso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Minhas trovas

Se fossem poéticas
Apenas ilustrariam
Um ridículo menestrel
Tal amante sem mel

Um beijo maldado,
Fel!

Doce lua,
A míngua no céu
Crua rua,
Cambaleante, andante
'the piper at the gates of dawn' *

Ilustre poeta de reversos
Desavisado de que suas letras
Não passam de desenhos opacos
De sentimentos fracos
Vindos de frascos deixados
Ilustres, ele ébrio,
E os desejos vazios...

sábado, 19 de novembro de 2011

Desmemórias


De que me vale ocupar-me de memórias
Escrever novas histórias, contos novos
De fadas fadadas ao fado, lamento

Ocupe-me com sua presença de bruxa
Com pequenos detalhes no rosto
De leve uns entalhes da idade...

Minha vida, vinda, vinha
Colhida, colheita pisada
Vinho...

Brindo o brio da idade
Consumido nas lembranças
Dores de cabeça, a beça

Sonho sempre, que talvez não te esqueças...

De que vale ocupar-me o tempo
Com vinho velho fora do barril
Com memórias de fantasias avinagradas

Sonhei sempre um dia poder lembrar
Do que nunca foi história nenhuma
E nem sonho dormido

Um pesadelo acordado
Sonhando com a história de ser amado
Ocupando minha memória com delírios
Desvarios obscurecidos na saudade

Deste teu sangue que se fosse sagrado
Poderia ser bebido...
Como não é mais puro
Só me serve de arder as feridas
Dos desejos inexatos, insanos

Mundanos...

De que vale ocupar-me agora,
Em dizer-te sobre tudo
O que não me é memória

sábado, 5 de novembro de 2011

A morte de Beatriz

         Sou irmão gêmeo de Beatriz. Não somos idênticos, obviamente pela diferença do sexo, mas no mais somos, ou fomos quase idênticos. Fisicamente muito parecidos, cor de pele, cabelo e uma diferença que mais me incomodou durante a vida toda: a cor dos olhos. Ela tinha dois olhos maravilhosos, expressivos e arrasadores. Arrasadores em qualquer sentido, tanto no olhar quanto na simplicidade da cor. Ímpar. Jamais vi ou verei cor de olhos como a dos dela. Se não a amasse diria que a invejava por isso, mas nunca tive este sentimento em relação a ela.
Há alguns anos não nos falávamos. Uma desavença devido a maneira de pensar em relação às coisas simples da vida, uma questão de orgulho e soberba de ambas as partes nos afastou e manteve longe, até que hoje pelo início da tarde recebi a notícia de que estava morta. Um cara, que nem sei quem é, simplesmente a matou. Réu confesso.
Ao que parece foi uma coisa passional, uma pessoa desequilibrada. Talvez tornado assim pela profunda beleza de Beatriz e seus olhos, a cor alva de sua pele, seus pingos de melanina, a cor acobreada e os cachos de seus cabelos, e muitos encantos que de tão intensos podem perturbar qualquer juízo masculino. Nem sei eu o que faria se não fosse irmão. Talvez impossível ver uma beleza como a dela. Sem desmerecer qualquer mulher, mas a beleza de Beatriz não era de passarela ou capa de revista, seus traços do rosto nem muito alinhados ou dentro de padrões do belo tradicional da contemporaneidade. Impossível não achá-la linda depois de conhecê-la de perto.
Nem bem sei se sofro pela sua ausência ou se por mim mesmo, que não tive tempo de me redimir perante meus erros, os que nos afastaram. Ambos tivemos sua parcela de responsabilidade, mas de um de nós sempre partira a iniciativa do pedido de perdão, da admissão da tal culpa. Detesto esta palavra : culpa! Minha infância foi dominada e regida por esta maldita palavra. Somente lá pelo final da adolescência fui reconceituar o significado do sentimento que colocam o nome de culpa. Resolvi mudar o nome para 'responsabilidade'. Não foi por mágica, mas responsabilidade não me causa sentimento ruim e culpa sim, causava-me!
Até esse maluco que tirou a vida da Beatriz, eu não o culpo de nada mas tenho plena consciência da decisão dele, matar Beatriz, e de fato matou, e de fato é responsável por isso. Basta olhar nos olhos dele, não se vê culpa nenhuma, pensa com seus botões que fez o que deveria fazer e sabe que foi responsável por isso, contanto que se confessou prontamente.
A primeira coisa que me veio a cabeça foi suicídio. Nada feito, minha vida está muito boa no momento, livre de crises existenciais, família tudo em ordem, trabalho de vento em popa. Senti um profundo desejo de matar o sujeito. No afã da confusão mental durante o recebimento da notícia de sua morte, lembrei-me apenas do ressentimento guardado devido a nossa desavença, de que se alguém tivesse direito de tirar a vida de Beatriz seria eu, apenas eu, mas recobrado o juízo e um pouco mais calmo abrandou-se a ira e aos poucos tomei consciência do que realmente havia acontecido. Daí então me veio a tal ideia do suicídio. Durou pouco com um simples exame de consciência.
Mas olhando os fatos : Bia está morta e eu devo tomar as providências para a cerimônia. Papai e mamãe já se foram, graças a Deus. Acho que não suportariam viver essa situação. Mas até chegar ao lugar para onde me dirijo preciso matá-la dentro de mim, pois quem não suportaria vê-la morta realmente, sou eu. E é fato que daqui a instantes a verei.
Então me pergunto como faço isso. Creio que somente gêmeos entendem do que falo ou talvez não, mas é fato de que durante este caminho irei cometer um suicídio pela metade, terei que matar dentro de mim uma pessoa que durante muito tempo foi uma extensão do que sou. Olhar Bia de frente era como me olhar e me ver sendo mulher, com exceção dos olhos, os meus e os dela claros, mas de cores diferentes. Um espelho para o qual, creio, somente eu tive o privilégio de olhar.
Pois é amada irmã, mataram você e eu pensei em tirar minha vida. Mas parte dela me foi tirada pelo lado de fora, cabe a mim tirá-la por dentro, sendo assim Bia, te suicido dentro de mim.
Adeus!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Senha


Abram-se todas as portas
Com palavras retas
E poemas tortos
E ouvidos bestas


Abram-se todas janelas
Que as feias
De calcinhas e meias,
Calçolas e camisolas
Querem dançar


Fechem todas as bocas
Que a poesia quer
Que a prosa cale


Façam da língua faca
Afiada no pescoço,
Da moça, do moço


Língua escrita
Vontade bonita
Calem-se todos e não digam
Senha nenhuma!


Sua senha para me ouvir
Sou eu quem fala:
--Cala a boca!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ciência exata

Escrever é preciso
Uma ciência exata
Saber sintática
Saber gramática

Escrever é preciso.

Pingos nos is,
Vírgulas,
Rimas.

Ah! Inferno de precisão.

Dicionários
De rimas
Sinônimos
E antônimos

Escrever é preciso
É precioso
É poderoso.
Quando escrevo sou poderoso,
Liberto-me de fantasmas.

Liberto-me porra nenhuma
Apenas os aprisiono
Atrás das grades destas linhas

E volto sempre pra vê-los
Aprisionados heroicamente por mim,
Minha caneta
E meu caderno
Mas quando me olham
Por de trás das grades,
Escarnecem.
E dizem que quem está preso
Sou eu!
Do outro lado das grades
Aprisionado na precisão da escrita.

sábado, 15 de outubro de 2011

Completamente livre


Completamente livre

Vivo preso num hospício
Chamado ‘meu corpo’
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas

Vivo preso num manicômio
Que se chama ‘minha mente’
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas

Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas ideias

Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre

domingo, 9 de outubro de 2011

Contentamento



E eu que ando triste estando contente.
Contente por estar aguentando sozinho
E triste por estar acontecendo sozinho

Eu é que ando triste
Por que estou contente
Em estar sozinho

E tão contente
Em estar sozinho
Que preciso de alguém
Para dividir este contentamento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Expelir




Quero expelir no presente
                              Em primeira pessoa
                                                               Não quero expulsar
                                                                                     Ou arremessar

Preciso por pra fora expelindo
Agora
Indicando minha revolta
Excomungando etimologia
Em apologia ao desrespeito

Em desinência
Sendo radical

Eu EXPILO mesmo

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

De braços e lápis dados continua . . .


"Caro senhor Joaquim; primeiramente peço-lhe perdão pela liberdade tomada nesta carta já que nosso relacionamento sustenta poucos anos de superficialidade cotidiana, fato que tornaria quase injustificável uma confissão como a que eu farei. Mas a questão é exatamente essa: eu não estou aqui com a finalidade de estreitarmos nossos laços, muito menos possuo qualquer ilusão de que o senhor poderá, por meio destas ............................... "    clique acima, para ler interio!

Rotina

Na superficialidade cotidiana
Dos cordiais 'bom dias', 'bom descanso'
Eu muito manso, quieto...
Descobri uma moça.
Que me fez deixar de lado
O olhar obsceno, do desejo pequeno
Aprendi o olhar simples
Que não traz desejo, angústia

Olho-a, rezo-a
''Te tenho uma reza"
Sempre digo a ela!

Ladainha dentro do pulso
Sinto e ressinto, mas não engano,
Não minto, só omito!

Ah o tal amigo do Joaquim...
Não sou eu, e de quem falo é moça
Que me espreme e força
A não querer mais do que devo

A rotina, desse Joaquim, parece banal
A minha um conforto
Absorto na graça austera,
Complicação sincera,
Pensamento célere
Vê-la na surpresa da imprevisibilidade
De sua cotidiana elegância,
Alternância...
Um dia lentes
Noutro óculos

A moça, vejo todo dia
Dia a dia,
E a cada um que passa
O outro pra trás...
Que bem poderiam ser
Seus passos em minha direção
Vindo entregar-me uma carta
Dizendo...

Ah! nem é preciso dizer...

Um dia sem Contação

Um dia fui ler o Contação... e estava assim:

"Queridos leitores de Letras et Cetera,

Infelizmente, por motivos de saúde, não consegui preparar um novo conto para publicação nesta quinta-feira. Minhas sinceras desculpas aos que vêm aqui todos os dias à procura de novos textos, e em especial aos amigos que tanto esperam a publicação semanal desta minha coluna.
Tenho certeza que encontrarão outros textos maravilhosos nesta revista literária digital!
Um grande abraço e até a semana que vem,

Mariela Mei"

Saiu isso então:


E o pseudo poeta se entristece
Na ausência do conto
Da tinta que não pinga
Da ponta da pena, da caneta, do grafite
Ou dedo que a digite.

E sente-se só.
Sem a letra
Sem a frase
Sem o tema que dispersa...

Me atrapalha, eu quem gosta
E trabalha.
Mas pára ansioso
Na Contação

Que hoje não me contou
Não me encantou
Na verdade, me perturbou,
Mais do que um texto ruim!

Me entristeceu...
Sem conto
Sem poema
A amiga, doente...
Doente, eu...
então eu faço a contação!
1
2
3
4
5
6
7
.
.
.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do avesso



Eu existo é pelo avesso
Porque o que sou
Não pode ser visto
É desagradável, indesejável

Então dou-me as próprias costas
Rasgo-me pela testa
Meto-me neste corte adentro
E mais um esforço
E estou pronto
Todo direitinho
Do jeitinho que querem ver
Comportadinho e direitinho
Mas por dentro mesmo
Todo do avesso

Avesso a tudo
Avesso ao direito
Avesso às normas
Avesso sempre
Vivo do avessoSó assim vivo direito

Quer saber?
Vire-me do avesso
Que verás a mesma coisa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Quitanda (a Eça de Queirós)

...escrito talvez numa tarde de maio em 2011

Talvez deva mesmo
 Abrir uma boa quitanda
 Dedicar meu precioso tempo
 Em algo útil, vender comida, fruta.
 Lindas mangas, brilhantes de cor intensa

Subjugo meus sentimentos a outro
 Que deveras não irá senti-los
 Minhas doces mangas
 Ah estas sim, sentirão de fato o sabor.

Entrego-me despido
 Sem pudores moralistas
 Pensando ser altruísta
 Que alguém se identifique
 E o que vivi lhe sirva de ajuda

Ledo engano
 Vou é vender fruta
 Mesmo.

‘Bom dia senhora’
 ‘Obrigado pela preferência’
 ‘Tchau, até amanhã’

Quanta gentileza!

Apodreçam meus versos
 Todos na gaveta
 Amadureçam os frutos
 Todos na prateleira

Um livro meu?
 Só se for do fluxo de caixa
 Da minha nova empreitada.

Minha prosa e poesia serão encaixotadas
 Junto das berinjelas velhas
 Chicórias murchas
 Tomates podres

E depois jogados
 À terra virgem
 Para servirem de adubo
 A algo que cresça
 E sirva para alguma coisa

Minha quitanda vai chamar-se:
 Livraria.
 E vai ter livro com casca
 E fruta com capa
 E versos de cebola
 E cachos de letras
 E abobrinha do tipo prosa
 E poesia do tipo goiaba

E verde...
 Só Cesário.
 E eu...
 Vou ser empresário.

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Parece que ao fim da vida, Eça de Queirós disse que teria sido mais útil a sociedade se tivesse aberto uma Quitanda.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Asas

imagem do filme Der Himmel über Berlin - 1987 (Asas do desejo) de Win Wenders

Asas(Original em Português por Guilherme Coutinho)
Tenho-nas,
Não me permitem o voo
Como pássaro

Duas delas que não me libertam
Da razão, da exaustão de voar parado

Duas delas que uso mantendo-me preso
Num voo sem vento, sem encanto

Sobrevoo rasteiro
Meus delírios, pensamentos
E insanidades...

Asas, minhas asas
Que me servem de carrascos
De algozes, que me condenam
A aspiração do infinito intangível.

Wings (versão de Guilherme Coutinho)

I have them both
And do not allow me the flight
as a bird
Two of them, do not set me
Free
From the reason or exhaustion
Still fly where I stand

I use both
Keeping me trapped
In a windless flight, no charm

Overflight creeping
My delusions, thoughts
And insanity...

Wings, my wings
That serve me as executioners
Or torturers, that condemn me
To the aspiration of the infinite intangible


Wings
(Versão de Dani Maiolo)

I have them
But those, don’t allow me the flight
Like birds

My wings don’t free me
From reason, from exhaustion
From a stopped flying

The two wings I have
Keep me tied
In a fly without wind, without grace

Creeping overflight
My delusions, thoughts
And insanities…

Wings, my wings
Those, that just serve me as tormentors
From tortures, that condemned me
The suction of unachievable infinite


Thanks Dani Maiolo :-)
Inspirado nuns versos de "D. Feathers" de Bettie Serveert


"...
Now the wings have clipped the bird instead
and claimed its head.
..."


D Feathers (Bettie Serveert)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Perfeição


Felicidade é bem estar.
E estar bem reconhecendo um erro é bom,
e estar mal pelo erro é ruim,
e não fazer nada a respeito é triste.

O sentido de "perfeito" é quando se é completo.
E ser completo é ser triste e feliz,
ter defeitos e qualidades, errar e acertar.

Esta é a perfeição que busco!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ophelia, a orquídea de Antonia

         Nunca escrevi um texto a pedido de alguém, sempre há uma primeira vez!


Coitada das duas, da Antonia e da Ophelia, a Antonia que pensa que é a dona da Ophelia e da Ophelia que vive presa num vaso dentro de um apartamento, nunca experimentou a liberdade de estar na natureza, é cria de cativeiro... Na floricultura pelo menos tinha a companhia das outras orquideas sem donos e sem nomes. Coitado mesmo sou eu, que nunca leu Sheakspear e nem sabe da história da Ophelia, e mais coitado ainda se Caeiro me visse falar isso de uma planta. Meu Deus! Falar que uma planta é uma coitada. Eu não sei nada a respeito da morte dele, mas se foi enterrado está se revirando no túmulo! Coitado do Caeiro se pudesse ler esta bobagem que escrevo...
Eu estou aqui, olhando para uma foto da Ophelia florida, tentando imaginar o que ela sente ou pensa. Ela não sente ou pensa é nada. Ela é que é feliz! Não tem cérebro, essa porcaria que só me enche a cabeça...
É...
Viva a Ophelia que não tem cérebro, que não sabe que exite mas existe, que não sabe que é orquídea e sabe florir, que não fala e nem escreve. Se é feliz? Provavelmente não, plantas não lêem e nem escrevem dicionários pra definir, não criam conceitos de nada, só fazem o que interessa : existir. Mas se sentisse alguma coisa com certeza seria felicidade, por deixar a Antonia de bem, feliz por cuidar de uma planta pela primeira vez na vida e eu feliz em descobrir que sou um idiota tentando fazer de conta que é uma planta pra sentir e escrever como uma delas...
É Ophelia, você sabe florir, alegrar, perfumar... e eu... só te olhar numa foto porque a Antonia pediu uma historinha...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Gotejante

Escrito após ler o conto . . .

CONTA-GOTAS de Mariela Mei
Como se fosse um balde
De baixo de um lustre velho
Por onde faz escorrer lentamente
Umas gotas, poucas amiúde,

D'água suja de ferro
Escorre, pinga
De tempo corre

Gotejam meu pensamento
E o sentimento
Na superfície de lâmina líquida
Extravaza seu conteúdo

Tempo,
Gota,
Persiste na desordem
Dessa coisa estranha e linda
Dessa conta que não finda
Tamanha
Tamanha gota
Que conta dor
Da gota, última que falta

E vai cair!

domingo, 18 de setembro de 2011

This is your soul



Hey girl beware,
Otherwise I'll swallow you

This is your soul
Not your mind
You don't need to think
Let it flows, you'll find
Deep inside,
In your heart and feelings

Stop to try, there is
No question for your brain
Just strike dumb,
To feel a little numb

Some comfort
Not misery
Just to be you,
Simply adorable

You'll find your feelings
They ain't tagged
In your brain
A secret to sustain
"Under a lock and key" *
Again and again

Spew your mind out and trample it
Like the devil did with your bread
That now you need to eat
Because it's just what was left to you

This is your life
Make a choice
Or...
I'll swallow you, your brain, your mind
Your heart and feelings

And your soul will be mine.

To you...
It's gonna be all right
You'll be my wine and dinner
And then there will be nothing to blame me
And no apologises to hang on to your ego

'Cause I'm free, and you...
It's your choice
I am inside your consciousness
This fading voice devoures you every time
* um verso de 'Brain-tag' de Bettie Serveert


Em Português :

Esta é a sua alma

Ei menina cuidado,
Caso contrário, eu vou te engolir
Esta é a sua alma
Não é a sua mente
Você não precisa pensar
Deixe-a fluir, você vai encontrar
Lá no fundo,
Em seu coração e sentimentos

Pare de tentar, não é
Nenhuma pergunta para o seu cérebro
Apenas cale-se com o susto,
Para sentir-se um pouco entorpecida

Um pouco de conforto
Não a miséria
Basta ser você,
Simplesmente adorável

Você vai encontrar os seus sentimentos
Não estão marcados
Em seu cérebro
Um segredo para guardar
A sete chaves
Novamente e novamente

Vomite sua mente para fora e esmague-a
Como o diabo fez com o seu pão
Que agora você precisa comer
Porque é só o que te resta

Esta é sua vida
Faça uma escolha
Ou ...
Eu vou te engolir, o seu cérebro, sua mente
Seu coração e os sentimentos
E sua alma será minha.

Para você ...
Vai dar tudo certo
Você será o meu vinho e jantar
Então não haverá nada para me culpar
Nem desculpas para pendurar em seu ego


Porque eu sou livre, e você ...
A escolha é sua
Eu estou dentro de sua consciência
Esta voz sumindo que sempre te devora

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Apenas uma sombra na lembrança

Escrito após ler o conto . . .

Crônica do interminável anseio de Mariela Mei
Mordo faminto uma sombra
Da sua lembrança,
Mastigo a penumbra de sua partida
E engulo seco a sua ausência.

E sinto ânsia
Não sei se de ver você novamente,
Ou de nó que fecha esse embrulho
No estômago,
Na garganta.

Saudade de ver impressa no chão
A sua delicadeza, sob a porta
De baixo da arandela
Eu sempre a espera
Sabia quando era você,
Mesmo antes que entrasse...

Não pelo som ou cheiro e sim
Na silhueta desenhada no chão.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Feudo novo

Servos dedicados
Cavalariça zelada
Ferreiro com tonel de brasa
A moldar coisa qualquer
Sobre a bigorna malhar

Uma a ser de pata eqüina
Outra a ser da mão que mata
Em nome do senhor
A quem servem
Ao qual devem
A vida que deveria
A eles mesmos pertencer

Casamento de servo
Ao noivo a noiva não serve
Ao nobre senhor é a quem deve
Ele será o primeiro.

Nobre um
Outro pobre.

Robin Hood.
Wilhelm Tell

Lendas para conforto
Incitaram um feudo revolto
Desordem interna
Também entre senhores
Descontentes querendo mais

Acordada uma solução
Um nobre acordo
Um novo feudo.
Tudo unificado

Maior e enriquecido
Com um nome novo:
Nação.

E tudo diferentemente igual.

sábado, 10 de setembro de 2011

Ausência


Precisei de 48 versos pra nem chegar perto do que Alberto Caeiro fez com apenas três...

em "O Pastor amoroso IV - 10/07/1930"
"...
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
..."

De quê é feita a ausência?
Do não estar,
Do vazio,
Do nada?

Da falta de alguém?

Se da falta de alguém
Já não há mais ausência,
Há alguém.

Sou preenchido de um vazio
Que aumenta,
Só aumenta,
Que se faz presente na ausência.

Se é vazio,
Se é ausência,
Que diabos!!!

Por que isto me preenche
E toma conta de tudo?

Quando não estás também me sinto ausente
Do mundo,
Do presente.

Só me resta pensar que ausência
Não é nada,
Não é sentimento,
Não existe.

Ausência é não sentir nada.
Porque quando não estás
Não sinto tua ausência,
Sinto sim um desejo enorme de ter você presente.

Ausência seria
Não te lembrar,
Não pensar em ti.

Mesmo quando não estás, estás.
Estás presente em meus pensamentos,
Em meus sentimentos e em meus desejos.

Penso que tua ausência
Resume-se apenas em não te ver,
Não te olhar, tornando-se assim somente
Uma anulação dos sentidos.
Não te ver,
Não te tocar,
Não te ouvir,
Não te cheirar,
Não sentir o gosto de teu beijo.

Sendo assim torna-se apenas
Uma questão de não sentir nada.

Então sei o que é,
Pois sinto o tempo todo
Quando não estás.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Caleidoscópio


Cacos coloridos
Caídos de corpos doloridos
De toda sorte de dores
Sentimentos e cores

De amores roxos
Decepções amarelas
Alegrias azuis

Recolhidos aos montes
Acondicionados com cuidado
Na memória, minha história
De fantasia, linda sinfonia

Choro bom de alívio
De lágrimas opacas
Fracas, tão fracas,
Quase de força escassa
Insistentes em não se derramarem
Por saberem que estavam negras
Com medo de assustar quem as queria fora

Lágrimas de sangue...
Antes assim fossem
Sangue vivo e lavado
Mas assim escuras, levaram todas as cores
Mesmo as tristes que coloriam as dores.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Duas taças

Oferece-me duas taças
Cheias da possibilidade
Coloca-as em minhas mãos
Que suavemente as esvazia
Num desgrampeio delicado
Pelas tuas costas, feito

Meio sem jeito procuro
No que nelas havia dentro
Um retorno aos tempos, infante
Apenas o gesto, sem manifesto de alimento

Sedento sugo-te o que não tens
Mas o que quero, e as taças que os contêm agora
São simplesmente e alternadamente
Minhas mãos e boca

Que das taças não quero é nada
Quero aquilo em que o conteúdo
Seja eu, o meu que não te toca
E por entre as que te movem se coloca.

Fantasio teus cheiros


Fantasio teus cheiros
Dos mais íntimos deles
Aos óbvios e comuns que deves guardar
No escuro, numa prateleira
De onde imagino essa mistura
Dos dedos teus, delicados e umedecidos
Pelas gotas de um perfume que não é o teu
Tocados pescoço e nuca, talvez o pulso
Ou por entre as curvas dos seios
Neste preparo todo, insólito ou desnecessário
Deveras agradável
Desinteressa-me o qual não é teu
O que sei qual é
O que qualquer uma pode ter
E importa-me sim o qual é teu
Que nenhuma pode ter

Perfume

Quando passas
Posso sentir a delicadeza
Do teu perfume.

Que sutileza!
Sem exagero.
Mas entro em desespero.

Gostaria mesmo poder
Sentir teu verdadeiro perfume
Que em imaginação se resume
Em um odor que em mim
Não desperta o instinto animal
Da vontade irracional.

Imagino teu cheiro
Verdadeiro
E simplesmente me inunda
A memória a sutileza.

Em ti vejo um modelo,
Uma mulher com belo cabelo
Com caminhar elegante
Que me deixa ofegante
Curioso e desejoso
Qual é o teu verdadeiro cheiro?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Olhar-te

Olhar-te
Não cria em mim só excitação carnal.
É vontade de olhar-te novamente.
E olhar-te
Para não sentir desejo de posse.
E olhar-te até que percas o sentido
E deixes de ser humana, mulher e seja apenas maravilha.
E olhar-te
Até cegar-me para não poder
Olhar-te
Novamente.
Sentir-te somente.

Olhar-te é mistério.
Deixo de ser humano
E sinto apenas.
Um prazer,
Um bem estar,
Um êxtase indescritível!
Parecido com frio na espinha, na barriga.
Parecido com um tremor.
Parecido com o que dizem ser amor.

Pedreiro ou poeta?

Não sou um pedreiro
Construindo um muro

Meu labor não tem hora
Nem resulta em obra
Não me sinto artista
Nem construtor ou poeta
Ajeitando palavras e rimas
Uma em cima da outra
Como se fossem tijolos
Unidos por argamassa
Produzindo um muro
Duro
Em pé!

Sou um reles engenheiro
Que inspira poesia
Respira sentimento
Inspira ar
Respira ar
Lê o que gosta
Escreve o que não gosta


Recuso-me ser
Recuso-me agir
Recuso-me não sentir


Ajeito sentimentos
Por entre as palavras
Deito pela boca o excremento verbal
Mas o desenho em letras e
Fodam-se métrica e rima
Estrofes e versos
Chuto tudo e arrebento
Esta estúpida poesia
Construída como muro.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Enquanto passavas

Enquanto passavas
 
Enquanto por mim passavas
Distraída, eu quase inexistente
Aos teus lindos olhos de cor comum
Castanhos e sóbrios por de trás das lentes
 
Em tudo me concentrava
No poema de Cesário e no som ritmado
De teu caminhar elegante, tranqüilo
E de uma sutileza infinitamente distante
De um andar insinuante.
 
Queixo elevado, sem nariz empinado
Postura tida em auto-estima
Sem soberba alguma
 
Tudo isso te misturou à Milady
Dos Deslumbramentos de Cesário
Eu, não vejo perigo em contemplar-te
Já que não impões toilettes complicadas
E nem gestos de neve ou metal
 
Mas tudo o que lia
Enquanto passavas
Vestiu-se como luva
Ao momento e à minha admiração
 
Fala-me de teus defeitos
Não sejas a perfeição que vejo
Tropeça ao menos uma vez
Para que possa me fazer de cordial
E te estender em arremedada gentileza
Minha trêmula mão que quer tocar
O que mais me seduz em teu corpo
Tuas delicadas mãos, que têm
Mais elogios do que dedos.
Nelas não há sequer um engano
São a beleza em carne e osso
 
E em ti, sempre um segredo
Guardado nestas mãos,
Tuas mãos
Que enquanto passavas
Nem sequer me tocaram,
Mas me encantaram.

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