domingo, 26 de junho de 2011

Fera

Uma besta
A fera
Indomada
De olho amarelo
No miolo

Alma forte
Corpo de sorte

Vicking feroz
De língua revolta
De letra solta

De coração pedrado

Enjaulado
Indominável
Abominável

A fera domada
Na delicadeza
Sutileza

Por ela
Que nem sequer é a bela
Que na unha
Dobra a fera
Amolece a pedra

Segura pela boca
A língua que fere
Pela mão detém
A fúria da fera

Que teme somente
A falta de medo

Minha inspiração

Minha inspiração tem nome
De musa, linda e feminina

Minha inspiração tem hora marcada
De madrugada
À tarde
De manhã
À noite
No trabalho
No espelho
No banheiro
No lugar
A hora que chega

Minha inspiração tem rosto
Desgosto
Muito gosto
Vocativo
De mulher
Aposto

Minha inspiração tem motivo
Sedução
Amor
Nunca paixão
Nunca vergonha
Sempre ridículo

Minha inspiração tem sabor
Doce
Amargo
A hora que chega
Pego e não largo

Minha inspiração tem regra
Discordância
Incoerência
Inconsistência
Paradoxo
Rima ausente
Vontade a vontade

Minha inspiração tem sobrenome
Dicionário
Gramática
Sintática
Raciocínio
Outros poetas, poetisas, cronistas, contistas

Minha inspiração tem personalidade
Fraca
Insegura
Sofismável
Revoltada
Inefável
Indefinida
Distorcida
Multifacetada

Minha inspiração não existe em liberdade
É feita prisioneira
Em minha vontade
E insanidade
De querer escrever compulsivamente
Sem precisar
Sem necessidade
Desde que sempre o resultado seja...

UM ABSURDO!!!

Minha inspiração responde sempre a chamada:
--Ausente!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Abaporu

Abaporu vem dos termos em tupi aba(homem), pora(gente) e ú (comer), significando "homem que come gente". (de acordo com o artigo : ABAPORU da Wikipédia)
Abaporu
Tarsila do Amaral,1928 - Óleo sobre tela - 85 x 73 cm
Coleção particular (de alguém...)

ABAPORU de Guilherme Coutinho

Dentro e fora
Sou eu, aquele que te devora
A troco de saciar minha fome
De te saber, conhecer não só como quem come
Uma prato barato da esquina

Me mata
Quem me impede
Ou fecha-me a boca
Sim, me maltrata

Sou eu aquele que está dentro
E está fora, que te corrói e assusta
Quem te devora e incorpora
Sua fome que tem sede
Que não cede tão cedo

Não quer vencer o medo
Do novo, sempre um segredo
Te devoro pela cabeça
Sem ter a pressa
Te devoro para que te conheça

E comunguemos não só pão e vinho sagrados
Nosso saber ou conhecer
Querer ver ou ter

Enquanto te degusto
Espero não ter mais a ânsia
De conhecer
Por que outros que tentei
Vomitei

domingo, 19 de junho de 2011

Ajuda de Neruda

Peço-te licença caro Neruda
Empresta-me versos
Preciso de ajuda
Os meus são dispersos
Na penumbra surgida
Em um crepúsculo
O sol tornado
Menos que inteiro
Metade
Menor
Ausente

Meu coração tomado, espremido
Por entre os dedos
Desta penumbra
Restada
Sobrada
Pós-beleza

Empresta-me este verso
Que pôs cheiro nas letras
Cores nas dores
E nomes nas penas
Resta-me o socorro em ti
Meu caro, agora ausente
Grato pela ajuda
Fez-me crepúsculo insistente
Na penumbra gélida e muda.

Noite no bosque

Lembro-me bem
Aquela noite escura
No bosque
Não tão escura assim
Uma lua, toda nua
Uma trilha percorrida
Tua pele sentida
Tocada na minha
As mãos dadas

Ambos perdidos
Caminhantes errantes
Rastro deixado
De andar pisado
Passos curtos
Passos largos

Uma noite
Em bosque enevoado
Somente um luar
Envenenado
Por um desejo
Imerecido e louco
Encontrar um caminho
De volta, sem voltas

Lembro-me bem
Daquela noite escura
Enevoada
Num bosque
Não um qualquer
Onde só havia
Malmequer
Sem caminho
Curto ou longo
Só desvios
Extravios
Dois vadios...

No trem

No trem de Guilherme Coutinho Tomaz

Num vago vazio
Vazio vagão
Do trem
Do trilho
Que trilha

Ao lado um vago
Assento vazio
Ao lado do lago
O trilho, o fio

Ao lado do vago
Vasto e fundo
Profundo e abismo
Do lado do trilho
Do trem que vem
Vagando
Vagando
Vagando
Caindo
Caindo
Caindo
Do lado
No lago
Fundo
Do fundo
Do abismo

Dum trem desgovernado
Descarrilado
De vida
Sofrida vivida
Dividida

No trilho da trilha
Que fica do lado
Do lago profundo
Do abismo do mundo

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cinto muito

Sinto-me...
Me sinto...
Sinto
Na cintura
Um cinto.

Que me aperta
O sentimento
Os sentidos

O cinto das regras
Que me aperta,
Que me bate,
Que não deixa
As calças caírem.

Sinto muito
Muito cinto
Muito sentido
No que tenho sentido.

Sentido algum
Sentindo algo.

Penso no que sinto
Que tal um absinto?
É.
Mas não há sentido nisso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Resolveram chamar mulher de poeta

Onde ela está?

Em uma resolução
Doida, doída e estúpida.

Eliminar do meu vocabulário
A palavra mais bela do dicionário?

Não consigo imaginar
Mulher poeta
Tem que ser poetisa!

Não concebo,
Não aceito
E não gosto.

Nem me perguntaram nada.
E a Minha Língua?

Posso escrever errado
Não entender o que leio
Nem saber da pessoa
Nem do verbo.

Agora é que não entendo mais nada.

Onde é que está minha palavra preferida?

Ela é mágica
Profunda
De um gênero a parte
Não tem sexo
Só nexo.
Sentimento anexo.
Enorme amplexo.

É da alma,
Da divindade,
Da essência da própria poesia.

Acabaram comigo,
Tornaram-me um defunto,
Antes fosse um morto vivo como sempre,
Enterraram-me com elas todas:
As poetisas e suas lindas poesias e a sublime palavra.

Meia dúzia de prazeres

Intervalos esparsos
Entre momentos de trabalho,
De lida tranqüila.

Sobra-me um tempo furtivo
Para uma lida,
Meia dúzia de poetas e poetisas.
Meu desejo é cem, não tenho tempo,
Há trabalho a fazer.

Gosto de café amargo
Mas de versos doces
Como os de Cora Coralina
Gostaria que fossem meus
Mas são de fato
Talvez mais eu deles
Do que eu de mim mesmo.

Tive meia dúzia de prazeres.
Se tivesse lido cem deles
Cem mil vezes prazer teria
E não saberia o que fazer
Com tanta euforia,
Seria impossível trabalhar.

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