domingo, 2 de outubro de 2011

Quitanda (a Eça de Queirós)

...escrito talvez numa tarde de maio em 2011

Talvez deva mesmo
 Abrir uma boa quitanda
 Dedicar meu precioso tempo
 Em algo útil, vender comida, fruta.
 Lindas mangas, brilhantes de cor intensa

Subjugo meus sentimentos a outro
 Que deveras não irá senti-los
 Minhas doces mangas
 Ah estas sim, sentirão de fato o sabor.

Entrego-me despido
 Sem pudores moralistas
 Pensando ser altruísta
 Que alguém se identifique
 E o que vivi lhe sirva de ajuda

Ledo engano
 Vou é vender fruta
 Mesmo.

‘Bom dia senhora’
 ‘Obrigado pela preferência’
 ‘Tchau, até amanhã’

Quanta gentileza!

Apodreçam meus versos
 Todos na gaveta
 Amadureçam os frutos
 Todos na prateleira

Um livro meu?
 Só se for do fluxo de caixa
 Da minha nova empreitada.

Minha prosa e poesia serão encaixotadas
 Junto das berinjelas velhas
 Chicórias murchas
 Tomates podres

E depois jogados
 À terra virgem
 Para servirem de adubo
 A algo que cresça
 E sirva para alguma coisa

Minha quitanda vai chamar-se:
 Livraria.
 E vai ter livro com casca
 E fruta com capa
 E versos de cebola
 E cachos de letras
 E abobrinha do tipo prosa
 E poesia do tipo goiaba

E verde...
 Só Cesário.
 E eu...
 Vou ser empresário.

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Parece que ao fim da vida, Eça de Queirós disse que teria sido mais útil a sociedade se tivesse aberto uma Quitanda.

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