quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Minhas trovas

Se fossem poéticas
Apenas ilustrariam
Um ridículo menestrel
Tal amante sem mel

Um beijo maldado,
Fel!

Doce lua,
A míngua no céu
Crua rua,
Cambaleante, andante
'the piper at the gates of dawn' *

Ilustre poeta de reversos
Desavisado de que suas letras
Não passam de desenhos opacos
De sentimentos fracos
Vindos de frascos deixados
Ilustres, ele ébrio,
E os desejos vazios...

sábado, 19 de novembro de 2011

Desmemórias


De que me vale ocupar-me de memórias
Escrever novas histórias, contos novos
De fadas fadadas ao fado, lamento

Ocupe-me com sua presença de bruxa
Com pequenos detalhes no rosto
De leve uns entalhes da idade...

Minha vida, vinda, vinha
Colhida, colheita pisada
Vinho...

Brindo o brio da idade
Consumido nas lembranças
Dores de cabeça, a beça

Sonho sempre, que talvez não te esqueças...

De que vale ocupar-me o tempo
Com vinho velho fora do barril
Com memórias de fantasias avinagradas

Sonhei sempre um dia poder lembrar
Do que nunca foi história nenhuma
E nem sonho dormido

Um pesadelo acordado
Sonhando com a história de ser amado
Ocupando minha memória com delírios
Desvarios obscurecidos na saudade

Deste teu sangue que se fosse sagrado
Poderia ser bebido...
Como não é mais puro
Só me serve de arder as feridas
Dos desejos inexatos, insanos

Mundanos...

De que vale ocupar-me agora,
Em dizer-te sobre tudo
O que não me é memória

sábado, 5 de novembro de 2011

A morte de Beatriz

         Sou irmão gêmeo de Beatriz. Não somos idênticos, obviamente pela diferença do sexo, mas no mais somos, ou fomos quase idênticos. Fisicamente muito parecidos, cor de pele, cabelo e uma diferença que mais me incomodou durante a vida toda: a cor dos olhos. Ela tinha dois olhos maravilhosos, expressivos e arrasadores. Arrasadores em qualquer sentido, tanto no olhar quanto na simplicidade da cor. Ímpar. Jamais vi ou verei cor de olhos como a dos dela. Se não a amasse diria que a invejava por isso, mas nunca tive este sentimento em relação a ela.
Há alguns anos não nos falávamos. Uma desavença devido a maneira de pensar em relação às coisas simples da vida, uma questão de orgulho e soberba de ambas as partes nos afastou e manteve longe, até que hoje pelo início da tarde recebi a notícia de que estava morta. Um cara, que nem sei quem é, simplesmente a matou. Réu confesso.
Ao que parece foi uma coisa passional, uma pessoa desequilibrada. Talvez tornado assim pela profunda beleza de Beatriz e seus olhos, a cor alva de sua pele, seus pingos de melanina, a cor acobreada e os cachos de seus cabelos, e muitos encantos que de tão intensos podem perturbar qualquer juízo masculino. Nem sei eu o que faria se não fosse irmão. Talvez impossível ver uma beleza como a dela. Sem desmerecer qualquer mulher, mas a beleza de Beatriz não era de passarela ou capa de revista, seus traços do rosto nem muito alinhados ou dentro de padrões do belo tradicional da contemporaneidade. Impossível não achá-la linda depois de conhecê-la de perto.
Nem bem sei se sofro pela sua ausência ou se por mim mesmo, que não tive tempo de me redimir perante meus erros, os que nos afastaram. Ambos tivemos sua parcela de responsabilidade, mas de um de nós sempre partira a iniciativa do pedido de perdão, da admissão da tal culpa. Detesto esta palavra : culpa! Minha infância foi dominada e regida por esta maldita palavra. Somente lá pelo final da adolescência fui reconceituar o significado do sentimento que colocam o nome de culpa. Resolvi mudar o nome para 'responsabilidade'. Não foi por mágica, mas responsabilidade não me causa sentimento ruim e culpa sim, causava-me!
Até esse maluco que tirou a vida da Beatriz, eu não o culpo de nada mas tenho plena consciência da decisão dele, matar Beatriz, e de fato matou, e de fato é responsável por isso. Basta olhar nos olhos dele, não se vê culpa nenhuma, pensa com seus botões que fez o que deveria fazer e sabe que foi responsável por isso, contanto que se confessou prontamente.
A primeira coisa que me veio a cabeça foi suicídio. Nada feito, minha vida está muito boa no momento, livre de crises existenciais, família tudo em ordem, trabalho de vento em popa. Senti um profundo desejo de matar o sujeito. No afã da confusão mental durante o recebimento da notícia de sua morte, lembrei-me apenas do ressentimento guardado devido a nossa desavença, de que se alguém tivesse direito de tirar a vida de Beatriz seria eu, apenas eu, mas recobrado o juízo e um pouco mais calmo abrandou-se a ira e aos poucos tomei consciência do que realmente havia acontecido. Daí então me veio a tal ideia do suicídio. Durou pouco com um simples exame de consciência.
Mas olhando os fatos : Bia está morta e eu devo tomar as providências para a cerimônia. Papai e mamãe já se foram, graças a Deus. Acho que não suportariam viver essa situação. Mas até chegar ao lugar para onde me dirijo preciso matá-la dentro de mim, pois quem não suportaria vê-la morta realmente, sou eu. E é fato que daqui a instantes a verei.
Então me pergunto como faço isso. Creio que somente gêmeos entendem do que falo ou talvez não, mas é fato de que durante este caminho irei cometer um suicídio pela metade, terei que matar dentro de mim uma pessoa que durante muito tempo foi uma extensão do que sou. Olhar Bia de frente era como me olhar e me ver sendo mulher, com exceção dos olhos, os meus e os dela claros, mas de cores diferentes. Um espelho para o qual, creio, somente eu tive o privilégio de olhar.
Pois é amada irmã, mataram você e eu pensei em tirar minha vida. Mas parte dela me foi tirada pelo lado de fora, cabe a mim tirá-la por dentro, sendo assim Bia, te suicido dentro de mim.
Adeus!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Senha


Abram-se todas as portas
Com palavras retas
E poemas tortos
E ouvidos bestas


Abram-se todas janelas
Que as feias
De calcinhas e meias,
Calçolas e camisolas
Querem dançar


Fechem todas as bocas
Que a poesia quer
Que a prosa cale


Façam da língua faca
Afiada no pescoço,
Da moça, do moço


Língua escrita
Vontade bonita
Calem-se todos e não digam
Senha nenhuma!


Sua senha para me ouvir
Sou eu quem fala:
--Cala a boca!

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