terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Joguete

Não me torne um jogador
Obrigando-me a lançar palavras no ar
Como se fossem dados sobre a mesa

Observá-las cair em teus ouvidos
Esperando de algum modo que façam sentido
Como números num jogo de azar.

Não faço acordo com letras, com números, com pessoas
Não jogo pra perder nem ganhar
Não jogo, eu falo
Não ouço, mas me calo

Pega-me a cabeça e chacoalha
E que as palavras excedentes me saiam
Que eu não ladre mais
E que não me exija nada além de viver
Sem ganhar nem perder
Somente aprender

O silêncio
A ausência
A solidão
O medo
A falta
A dor
A morte
A vida
A ferida
A partida...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Morte


Afasta de mim esta mão
Que suavemente me afaga
Doce, esguia, macia
Deveras gelada

Leve distante esse toque
Pesado, pesares, dores molares

Mastiga este pão imerso
Em dores, horrores, tormentos
Que correm infinito deserto ‘in vitro’
Que marcam meu rosto com linhas
Nas beiras dos olhos marejados na dúvida

Toma esta mão sem calo algum
Que lidou branda na vida
Dividida, um dia que foi aquele
Antes de te saber

É agora a hora do meu dever
De ver, ver o que somente terei
Depois de cerrar os olhos
Pela última vez.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Espadachim


Parte da palavra
Desmedida que fere
A mim dada inteira
A espada
Que corta pela metade
A parte da carne
Que aberta
Ferida

Divide a vida
Eu, a pessoa
Que repartida
Torna-se dupla
Duplo, sentido

Ida e vinda
'Inda sem vida
Verte sangue
Sobre o fio
Que congela
Traz-me ao frio

Duplo ser
Nada ser
Querer levantar
Sem sentir
O peso da espada
Cortar sem sangrar
Doer sem sofrer
Viver quieto
Calado
Gelado
E morto
Ao lado da espada
Cravada no chão
De pedra onde vivo
Pregado, empedernido
Mudo

Torna-me


Empresta-me teus ouvidos
Para dizer-te sobre o que não quero
Sobre as mentiras que pairam no ar
E as incertezas que desaguam no mar

Toma-me pelas mãos e guia
Em direção aonde não quero ir
E entorna doçuras em meus ouvidos
Desta tua boca que diz muito
Quando cala
Deste teu silêncio que ensurdece
Quando cala

Sou eu sem me pertencer
Sou meu sendo teu
E eu não sou nada
Além de mim
Da vontade de ser-te eu
Tu
Em ti, eu tornar-me.

O ébrio e as luas


Cambaleia sob as duas
Cinzentas e reluzentes
Hoje cheias as luas
Onde antes todas foram ausentes

Estranhamente sente dor
Incólume.
Torpor de repente
Constante volume.

Tropeço
Arremesso
Espesso

E as luas pairam
Por sobre nuvens
Dilúvio etílico
Perfume demente
Apenas semente
De delirium tremens
Tremendas dores
Temendo odores
Horrendo ser
Na noite vagueia e cambaleia
E as luas pairam
Por sobre o bosque
Cheias as duas
Transbordantes de reflexo
Sonhando com apenas um acalento
Um amplexo
Que tenha sentido
Que um dia teve
Que um dia satisfeito
Que um dia apenas uma delas havia
E as noites eram escuras, os dias claros
E os prazeres não raros.

Ébrio,
Fétido,
Fausto e exausto
Repousa sem paz
Ao som da aurora
Nos dias de outrora
Onde havia apenas uma
A amada
Que hoje é apenas a lua dobrada

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