quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre o patamar da escada

Sobre o patamar da escada, como se fosse o cimo de um outeiro, observava os pacíficos bebedores, os bebedores problema, os bebedores esporádicos e meus próprios pensamentos que pairavam sobre o salão. Continuava a descer e mais dois degraus abaixo comecei a perceber a necessidade de definir a qual dessas espécies pertenço. Mas rapidamente torna-se nítida minha condição de igual a todos e ao mesmo tempo diferente de todos. Igual, pois todos neste momento bebemos e não há um pensamento limpo nesse lugar e nenhuma boca capaz de proferir algumas palavras sem antes levar um trago até garganta. Diferente, pois posso saber da minha condição verdadeira, a dos outros não passa de julgamento ou mera especulação que faço com os botões de minha camisa. A condição de igual aos outros os coloca na mesma condição da miséria humana que temo e vivo, pois dito por Cruz e Souza que nos apodrecimentos da matéria somos todos iguais na boca dos vermes que nos devorarão em plebeia fúria. Diga-se de passagem, que por aqui se encontram apenas ilustres e nobres, ilustres desocupados e nobres boêmios, que ao saírem cambaleantes ao final da noite ou despontar da alvorada, alguns chegarão a casa, outros dormirão em bancos e outros nas calçadas e sarjetas, diferentemente dos ordinários, que dormem cedo e acordam cedo.
A música que não gosto e ouço, continua a tocar, mas por obra do destino os músicos são bons, me agrada a maneira como tocam, porém o tipo de música me desagrada por completo, daquele tipo, feita pra não se prestar a atenção e servir de pano de fundo pra conversas de ébrios. Mas não consigo não prestar atenção em uma música, seria mais fácil pedir a um interlocutor calar-se do que desviar minha atenção para longe da harmonia, dos acordes, da melodia, do prazer inenarrável proveniente dos sons. Dizem que o caminho entre a razão e o coração é longo, árduo, mas o caminho do meu ouvido ao coração é quase inexistente, pois ambos vivem juntos. Os sons são milagres, notas musicais são milagres, a voz que canta é um milagre, a ciência é falsa, mentirosa, explica a tudo e todos, mas não tem coração. Enfim ao menos os músicos são bons e a função de uma música, que é emocionar, foi cumprida. Raiva, estou com raiva, muita raiva, e é essa a emoção que me foi dada por hora.
Pisei no último degrau decidido a me enquadrar numa condição de desigual, de indiferente, pois meus comparsas etílicos se deliciam em conversas acompanhadas de música e eu, nem me delicio com a música e nem com essa conversa sem sentindo entre mim, eu e meu racionalismo.
Pra fora! Fora daqui montado no cavalo de Álvaro, metendo-me as próprias esporas no lombo do cavalo que sou. Rápido, rápido... e saio daqui com uma esperança de um dia me reconhecer em um animal, e como Haller que se autodenominava o Lobo da Estepe, sabendo de sua própria condição, eu encontre um com o qual me identifique. Por vezes imaginei-me uma dessas enormes baleias que vagam anos pelos oceanos sem encontrar semelhante, mas a minha insistência em tentar fazer parte do contrato social da modernidade, ainda me coloca fora dos oceanos, distante da possibilidade querer saber como é realmente ser um solitário convicto. Por enquanto continuo apenas na minha condição de um solitário que anda por entre a gente, bebe em bares e frequenta espetáculos musicais e que sempre encontra alguém com quem ter e poder encontrar-se em outra hora ou outro bar... e dane-se a dondoca cabeça oca metida a intelectual que me ficou esperando voltar do banheiro. Vais feder como a princesa da ironia dos vermes, tu também, falsa donzela de pensar medíocre.

Realmente, vinho não me faz muito bem...

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