terça-feira, 27 de maio de 2014

Passagens de "O Lobo da Estepe" de Hermann Hesse (II)


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Lentamente, subimos, a escada juntos, e ao chegarmos à porta de seu quarto, já com a chave na mão, olhou-me de novo nos olhos, muito amavelmente, dizendo: — O senhor está vindo do trabalho? É verdade que disso nada entendo; vivo um tanto à margem, o senhor compreende... Mas creio que também lhe interessem os livros e coisas assim; sua tia me disse que o senhor completou seus estudos e que era um bom estudante de grego. Esta manhã encontrei uma frase em Novalis.. Permite-me que lha mostre? O senhor também há de gostar de vê-la. Fez-me entrar no quarto, que recendia a forte cheiro de fumo, tirou um livro de uma pilha deles, folheou-o, à procura. — Esta aqui também é boa, muito boa — disse. — Veja só esta frase: "O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe." Magnífico! Oitenta anos antes de Nietzsche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe... Espere, aqui está. Ouça: "A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer. '' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado. Eu estava fascinado e cheio de interesse, e fiquei mais um pouco em sua companhia; desde então passamos a falar-nos com freqüência sempre que nos encontrávamos na escada ou na rua. Em tais ocasiões, a princípio sempre tinha a impressão de que ele me ironizava. Mas tal não era. Tinha por mim um verdadeiro respeito, da mesma forma como tinha pelo pinheirinho. Estava tão convicto e consciente de seu isolamento, de seu andar sobre a água, do seu desarraigamento, que era capaz de entusiasmar-se realmente e sem o menor sarcasmo ao contemplar qualquer ato habitual da vida burguesa, como por exemplo a pontualidade com que eu ia para o escritório ou uma expressão que ouvira por acaso e algum mensageiro ou de um condutor de bonde. A princípio, isso me pareceu ridículo e exagerado, a afetação de um senhor ocioso, um sentimentalismo teatral. Mas, cada vez mais pude ver que, na realidade, nosso pequeno mundo burguês era querido e admirado lá da distância de seu espaço vazio, da sua estranheza e da sua condição de lobo, como algo distante e inatingível para ele. como o lar e a paz, aos quais nenhum caminho o poderia levar. Tirava o chapéu com todo o respeito diante de nossa empregada, uma excelente mulher, e quando minha tia alguma vez mantinha conversação com ele ou chamava sua atenção para a necessidade de qualquer reparo em sua roupa, algum botão que lhe caíra do casaco, ele a ouvia com atenciosa consideração e interesse, como se fizesse um esforço inaudito e desesperado para penetrar por uma fresta qualquer neste nosso pequeno mundo pacífico e ter ali sua morada, ainda que fosse por um momento apenas.
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em O Lobo da Estepe de Hermann Hesse

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