sábado, 24 de dezembro de 2016

fim da maturidade

sentar-me à soleira da porta e pensar apenas
que sou o resto de um mau sonho da noite
escrever sobre isso e sentir-se um palhaço
e bem como o pequeno Milton disse:
poetas e pintores são bufões que projetam
sombras sobre a água.
num silêncio terno e perturbador ao mesmo tempo
rodeado das lamentações e dores que me fizeram amadurecer
repousa minha resignação, ou pelo menos um arremedo
de aceitação daquilo que fui.
as folhas que caem e apodrecem
que tornam-se inúteis à árvore e úteis ao solo forram também a superfície desta água mansa onde projetam-se as sombras
e perduram as mazelas
de tempos em tempos a água seca
as gotas minguam ou pingam lentas a miúde
as sombras se travestem em penumbras
o triste bufão se despe de si e da falsa alegria
nu, ao lado de um curso d'água estio que finda num lago seco que por fim dá esteio ao fim sem nenhum meio
sombras, mazelas, dores, folhas...
enfim as flores!
as coroas e o punhado de terra.
o solo
a falta de sol
enfim só
e de sólido só o resto, do pó ao pó...

terça-feira, 15 de novembro de 2016

fiz o que sabia

E se eu não sei te fazer sentires amada
Por que razão eu devo ficar então?... se fiz o que sabia
Se não te faço sentires amor em mim
Sou gelo então, que derrete em suas mãos

domingo, 1 de maio de 2016

UM POEMA SEM NOME OU DATA

Surpresas são agradáveis
Esperá-las não é nada saudável
Olhar dentro de mim, onde realmente moro
E um dia arrastar todos os móveis,
Ajeitar a casa, limpar os cantos
Guardar nas estantes os encantos passados
As paixões desenfreadas e as não correspondidas.

Memórias são agradáveis
Todas, todas elas, até mesmo as indesejáveis…
Foi nelas que fui feito
Foram elas que me deram defeitos
É nelas que construí ilusões,
Sobre o que não sou e
Sobre o que penso não ser.

O que ser, o que não ser?
Isso pouco importa!
Estar é mais adequado

“Aquele que é, não está no ciclo
Aquele que está, é do ciclo!
Aquele que pensa… bem pensar é a abstração mais nobre da existência
Imaginar o que não existe, almejar o que não tem contorno ou forma
Simplesmente apreciar a ordem natural sem esperar nada”

Em ti vejo um final de ciclo
De um tempo de experiências, de ilusões e desilusões
De distrações, de alegrias e tristezas
Imagino que em ti se desfaz minha última paixão

e…

Em ti vejo um início de novo ciclo
Sem ser, sem coisas com nomes
Eu como um ser no agora
Livre de qualquer sentimento anterior
Com a casa toda arrumada e limpa


Só pra te convidar a entrar e conhecer...

segunda-feira, 18 de abril de 2016

as cores que gosto são feitas de saliva

as cores que gosto são feitas de saliva
as outras, feitas de lágrimas
as cores que vejo são variadas
são limitadas a uma escala monocromática
de infinitos tons entre o branco e o negro

as lembranças que tenho são como sons
por vezes agudos e irritantes
e por outras harmônicos e consoantes

mas nada se compara a ausência de som e cor
das lágrimas que caem no agora
silenciosas e cristalinas

TALVEZ ESCRITO EM UM MÊS QUALQUER EM 2012

sábado, 27 de fevereiro de 2016

pérolas aos pou(r)cos

De início pensei que fosse...
Paciente atirei pérolas aos poucos,
Num entremeio tirei meus olhos...
Impaciente joguei-os ao chão.

Meus olhos ao chão,
As pérolas foscas,
A menina era tosca.

E as pérolas?

Ficaram para os porcos...

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