sábado, 24 de dezembro de 2016

fim da maturidade

sentar-me à soleira da porta e pensar apenas
que sou o resto de um mau sonho da noite
escrever sobre isso e sentir-se um palhaço
e bem como o pequeno Milton disse:
poetas e pintores são bufões que projetam
sombras sobre a água.
num silêncio terno e perturbador ao mesmo tempo
rodeado das lamentações e dores que me fizeram amadurecer
repousa minha resignação, ou pelo menos um arremedo
de aceitação daquilo que fui.
as folhas que caem e apodrecem
que tornam-se inúteis à árvore e úteis ao solo forram também a superfície desta água mansa onde projetam-se as sombras
e perduram as mazelas
de tempos em tempos a água seca
as gotas minguam ou pingam lentas a miúde
as sombras se travestem em penumbras
o triste bufão se despe de si e da falsa alegria
nu, ao lado de um curso d'água estio que finda num lago seco que por fim dá esteio ao fim sem nenhum meio
sombras, mazelas, dores, folhas...
enfim as flores!
as coroas e o punhado de terra.
o solo
a falta de sol
enfim só
e de sólido só o resto, do pó ao pó...

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