"(...)
fui colocado em contato com o impostor,
o espírito maldoso,
e manobrou-me para uma luta sem fim durante a vida
da qual não havia escolha,
a não ser escrever a minha saída.
(...)"
William S. Burroughs em Queer
segunda-feira, 6 de abril de 2026
por certo não é nada
até lhe faria um com dedicatória
se soubesse escrever poemas
talvez tentasse uns versos coxos
mas minha escrita é tosca
linhas tortas e de caligrafia feia
meus versos são prosaicos
e as rimas minguadas ou pobres
se soubesse do que falar, falaria
s'eu tivesse tema, discursaria
se houvesse argumento, dissertaria
mas é certo, não há razão, tema ou argumento
há somente a mão acatando ao impulso
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
domingo, 12 de junho de 2022
À beira do lago
Em um de meus esporádicos passeios ao nascer do sol, certa vez – e a única por assim dizer – deparei-me com uma figura de aparência completamente comum. Um homem comum vestindo roupas comuns, mas em uma atitude nada comum para estes tempos de hoje naquele parque: um cavalete virado para o lado contrário ao do lago e uma tela com umas manchas de tinta, e ao lado havia uma banquetinha com um conjunto de pincéis de tamanhos variados. Paramos a seu lado e ficamos a observá-lo, eu, minha curiosidade e minha crítica de ignorante. Numa entonação muito calma sem se virar me indagou se eu já era capaz de antever o que seria pintado naquela tela:
– Obviamente não será o lago e seus pássaros!
– Por que não? Posso querer por à prova minha memória fotográfica. E se eu quiser pintar o momento que vi antes de o sol começar a ofuscar o que eu não posso ver agora?
– Não tinha pensado nisso. Sabe que conheço uma canção que diz que “O problema com o classicista é que ele olha uma árvore, é tudo o que vê, ele pinta a árvore. O problema com o classicista é que ele olha para o céu, ele não pergunta por que, ele só pinta o céu. O problema com o impressionista é que ele olha para um tronco, não sabe quem ele é parado olhando para este o tronco...” e por aí vai.
– Uma visão um pouco simplista, me parece até opinião de algum artista contemporâneo, talvez alguém que desenhasse latas de sopa – um tom irônico em sua voz denunciava que sabia de quem eu estava falando.
– Que por sinal continuam com o mesmo desenho há uns 50 anos.
– Talvez estas coisas façam sentido para alguém, mas para mim não fazem.
E durante este curto diálogo continuou com suas pinceladas que nada pareciam. Permaneci ali parado apenas olhando, cético e indiferente a qualquer possível resultado do que quer que fosse ser revelado por aqueles gestos que guiavam cuidadosamente cada um dos pincéis que ia trocando e misturando cores em suas pontas.
– E o senhor? Pretende ficar aí parado me vendo pintar?
– Ainda não me decidi, se o senhor me permitir posso ficar, mas se preferir posso ir embora.
– Não, não me entenda mal. Apenas uma pergunta, sabe... dessas que a gente usa só pra continuar com a conversa. Porque o senhor não fica do lado detrás da tela, assim podemos conversar nos olhando, olhos nos olhos.
– Como quiser... mas... o senhor não vai me incluir em sua pintura, vai?
– Não, detesto pintar pessoas – e soltou uma gargalhada enorme.
– De que o senhor riu?
– Sabe que uma de minhas filhas me pediu que pintasse um retrato dela, que fizesse uma cópia de uma fotografia preto e branco de quando ela era bebê, mas que eu reproduzisse as cores como eram. A menina não gostou muito...
– Por qual motivo?
– Ela disse que o rosto dela havia ficado todo torto. Fato é que pra eu imaginar ou lembrar, seja lá o que for, das cores como eram tive que pintar metade como era e metade como é. Foi a maneira que encontrei de me expressar, por fim ficou um retrato de meia menina e meia mulher, por isso ela entendeu que tivesse ficado torto, mas na realidade eu não me lembrava mais de como era a cor de seu cabelo, a inocência de seu olhar foi se diluindo junto à tinta, as proporções se perdendo como se durante o tempo que eu levei pra pintar um lado do rosto fosse proporcional ao tempo que passara em sua vida até o momento que pintei o outro lado do rosto. Um pouco confuso, assim como o resultado. Ela jogou fora, o senhor acredita? – e mais outra gargalhada, com se fosse uma coisa completamente normal jogar uma pintura fora.
– Mas como assim, jogou fora?
– E com requintes de crueldade, blasfemou e rasgou a tela!
– E o senhor não se manifestou, não reclamou?
– E por que deveria? O quadro era dela.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Sobre botas, máscaras, deveres e lobos
que por entre coníferas e palha e troncos
estalam gravetos e perturbam o repouso
homens toscos, grotescos que fazem por ordem de outrem
e cumprem deveres que não deveriam ser seus
o medo nos olhos, no cheiro do suor...
nem ao menos gratidão ao fim da labuta
e lobos viram homens e homens se tornam em palha
e palha e galhos se tornam monstros
quando ardem em fogo e exterminam
homens, lobos, deveres e outrem
até que tudo retorne como antes era
e não haja mais obrigações, lobos ou homens
perseguindo lobos que perseguiam homens
que usavam botas e máscaras negras.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
Isabelle
Neither the one as seen in the sheets
after the maiden's first night
It's not the same golden as seen on that girl's hair
And it's really not the gold that adorns hands of kings,
princes or any nobleman that is
It's not the same blue as seen in some dreams
Neither that one as seen around the iris of
astonishing Isabelle, so beautiful, so pure
It's not the same dark as unseen during the night
And it's really not that dark devouring any colour
any stare, a wish or whatever it is
It doesn't belong, the pureness of white
Because there is no notion anymore , even a foggy notion
the way that looked like the skin of Isabelle
Nobody want her no more, nobody see her anymore
Because her preciousness was taken away
cruelly, roughly, finally
Nobody knows where she goes or walks
But in my dreams she runs with Annabel
both at the beach while the wind sings
About the paleness of their beauty and prowess
While they sing and spin to the sound of the sea
a raging sea, a calm sea, calm and raging sea
(versão em português)
A ti terra mãe
Gaia da ciência,
da existência!
A ti me devolvo
E te devolvo parte de ti
E de mim quase inteiro
A ti terra querida, dou-me:
Aquilo que fui,
O que quiz e o que não mais será.
A ti, terra que engole
Eis um corpo que jaz
Que não me serve
Mas que a ti pertence
A ti terra querida,
Que devora olhos,
Que come gente,
Que vive ainda,
A ti me dou.
Querendo que me torne
Em algo que em outra forma te sirva.
Sempre!
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Um adeus à Dona Zinda(querida mãe, tia, irmã, avó e amiga)
O dia em que os três Reis Magos visitaram o messias recém-nascido
O dia em que removemos os enfeites de Natal.
O dia em que a felicidade mudou de caminho,
Um caminho sem sua mão pra guiar
O seu colo pra confortar
E seu rosto pra beijar.
Um caminho onde seguiremos com tudo de melhor que nos deu:
O conhecimento que tinha, o amor que nunca faltou e
A dedicação que apenas mães sabem como é,
pois não sou mãe
mas tenho uma
nunca serei
e nem nunca terei
uma para sempre
mãe?
é só uma mulher...
que só me alimentou,
que me deu só de seu leite
que me educou
e ensinou a sempre olhar o dicionário, quando só.
que me deu colo,
que só amou... fosse a mim ou meus irmãos
ou a todos nós, e nunca um só
é só uma pessoa
que eu só gosto
que eu só admiro
que eu só olho e digo:
"Mãe não é uma só, é só você!"
sábado, 24 de dezembro de 2016
fim da maturidade
sou o resto de um mau sonho da noite
escrever sobre isso e sentir-me um palhaço.
bem como o pequeno Milton disse:
"poetas e pintores são bufões que projetam
sombras sobre a água."
num silêncio terno e perturbador ao mesmo tempo
rodeado das lamentações e dores que me fizeram amadurecer
repousa minha resignação, ou pelo menos um arremedo
de aceitação daquilo que fui.
as folhas que caem e apodrecerão
que irão se tornam inúteis à árvore, porém úteis ao solo
forram também a superfície desta água mansa
onde projetam-se as sombras e perduram as mazelas.
de tempos em tempos a água seca
as gotas mínguam ou pingam lentas a miúde
as sombras se travestem em penumbras
o triste bufão se despe de si e da falsa alegria
nu, ao lado de um curso d'água estio que finda num lago seco
que por fim dá esteio ao fim sem nenhum meio
sombras, mazelas, dores, folhas...
enfim as flores!
as coroas e o punhado de terra.
o solo
a falta de sol
enfim só
e de sólido só o resto, do pó ao pó...
sábado, 27 de fevereiro de 2016
pérolas aos pou(r)cos
Paciente atirei pérolas aos poucos,
Num entremeio tirei meus olhos...
Impaciente joguei-os ao chão.
Meus olhos ao chão,
As pérolas foscas,
A menina era tosca.
E as pérolas?
Ficaram para os porcos...
domingo, 15 de novembro de 2015
Dead at Bataclan Club
são duros!
os dedos da morte são secos.
são duros!
os dedos da morte não tocam
empurram!
os dedos da morte não encantam
condenam!
a ceifa
a colheita
o fio
o frio
o fim!
sábado, 19 de setembro de 2015
não me corrijam
muito menos em minha poesia
que não quero que seja poesia.
mas se acharem que sou poeta
saiam da frente e não me corrijam!
eu tenho licença poética!
você
não é um pronome do caso reto.
é uma segunda pessoa,
com certeza indireta.
tuas, melhor dizendo, suas ações
são sempre através de terceiros
mas do caso reto.
se você é uma pessoa?
não...
não, com certeza não
mas substitui uma
pelo nome
pronome
que poderia ser tu
ai sim tu te tornarias uma pessoa
não agindo como uma terceira
e não nos deixando a vossa mercê.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
labor ou ofício
escreveria ofícios e despachos
ou outra coisa que não precisasse escrever
se tivesse por labor ser poeta
com certeza faria versos
livres de qualquer compromisso
eu e eles!
domingo, 9 de agosto de 2015
o verso em mente
não passam de um disfarce para a tristeza,
a melancolia e a morbidez travestidas em palavras
meticulosamente colocadas e arranjadas
desejando que pensem ser eu tranquilo, eu sábio
mas bem sei que tais versos
são só o meu pensamento organizado
em arremedos de compreensão daquele eu
que mal vejo e que esqueço dentro de mim
que poucas vezes dou atenção,
que por raras vezes ouço
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
i am trying very hard to be here(de Rebecca Lawson)
(publicação original)
if i could absolve all of my desires,
exhale my longing like smoke,
i would cast off every guilty thought
with the ashes, and rise celestial
as a pale morning star, glimmer
and disappear.
de Rebecca Lawson
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
outras reflexões (de Antonia van Haas)
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Reflexões
... e algumas citações
"(...)
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
(...)"
Alberto Caeiro em "O Guardador de Rebanhos"
"(...)
Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade,
pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida estará confundindo
a terra com a água e um dia morrerá afogado.
(...)"
Herman Hesse em 'O lobo da estepe'
"The foolish reject what they see,
not what they think;
the wise reject what they think,
not what they see."
Huang Po
quarta-feira, 18 de junho de 2014
e feito Cruz e Souza II
o tempo rasteja
desperto em um sonho doloroso
nesta madrugada eterna
dentro de uma espiral onde ainda afundo
debaixo de uma vida sem sentido
imaginando o cheiro da morte
fingindo ainda estar vivo
mas não vivendo, realmente
o tempo está correndo
deslizando através da maturidade
secando a pele que recobre
uma porção de carne
que um dia vai feder
antes de alimentar vermes e larvas
que provavelmente ignorem
o fato de estarem vivos