terça-feira, 16 de agosto de 2011

Espuma do mar

Zeus, que susto!

Um homem robusto
Que a acompanha,
Ao sair desta água que parte
E parte dela salgada
Por meu desgosto
Em vê-la acompanhada

Antes fosse saída como Afrodite
Dos colhões de outro deus arrancados
Jogados ao mar, e de espumado
Saiu-lhe A deusa.

Vil desejo...
Sei que passa
Tanto ele; desejo, quanto ela
Onda que vejo, quero e desisto.

E este encanto foi como
A própria de onde saiu
Bateu a beira e voltou atrás
Espumou intensa e dissolveu-se

E eu,
Como "o tolo do Orfeu" *...
Dane-se ela, pseudo-Afrodite
Afogo-me mesmo
No encanto da minha Eurídce
Que é o rio que passa constante
De infinitas curvas...
Que tanto faz se insinuantes ou não.


* parte de um verso do poema Sem Lenda de Flá Perez

terça-feira, 9 de agosto de 2011

As horas não passam

Num momento sou leão
Enjaulado num zoológico qualquer
Noutro tempo sou apenas
Bicho homem preso em pé

Ando, ando, ando...
Circulo único
Ciclo de passos
De ponteiros, pêndulo
Paredes que me cercam
Relógio pendurado

De um para outro
De lado a lado
Preso, enjaulado

Tanto faz se leão
Tanto, fez-se animal, homem
Tanto faz se jaula
Tanto faz se casa

Tanto faz Tanto faz
Tic
Tac
Tic
Tac

Tanto faz...
Tempo faz
Tempo vai

Que horas são?

Desejo é veneno

Alguns deles matam
Outros somente necrosam

Ser entregue à sorte
Do portentoso e coriáceo

Inquebrável o pote que o contém
Inabalável o mote que advém

É vaso de sangue ausente
Anseio inconsistente
Indesejável resultado
Não presente, ainda por vir

Se sorte houver
Talvez prazer
Lamentado o não realizado

Sofrer enquanto espera
Sofrer se não houver feito
Sofrer quando acabado
Sofrimento há de ter
De qualquer jeito
Seja desejo feito, mal feito ou...
Satisfeito torna-se fardo
Troca-se o almejado.
Insatisfeito agora
Com o dantes desejado

Veneno espesso
De serpente vertido.
De repente morrido.

Viver desejo é sofrer à sorte do sabe-se lá o quê.
Melhor desejo é decidir não tê-lo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Completamente livre

Vivo preso num hospício
Chamado ‘meu corpo’
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas

Vivo preso num manicômio
Que se chama ‘minha mente’
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas

Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas ideias

Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Não pertenço

“Quando escrevo visito-me solenemente” (Fernando Pessoa)

Quando leio me descubro não ser eu
Dou-me por completo a uns poucos versos
Que mal compreendo,
Nem sei bem se dizem o que estou a entender.

Mas e daí?
Tanto faz, quando leio abandono-me solenemente
Ponho-me no esquecimento de que não pertenço a meu corpo
E nem sei mesmo se o sinto,
Versos me possuem, me arrancam de dentro não sentimentos
Arrancam-me sutilmente da quietude fingida
Nos momentos de sobrevivência.

Adoro comida, comer, dormir e não ler nada.
Um absurdo paradoxal, quando digo que leio e gosto
Gosto sim, não gosto é da preguiça que sinto
Em abrir um livro e mover os olhos
Cansam-me os músculos, esta perseguição insólita
Correndo e correndo atrás de letrinhas paradas
Que não se movem, que não falam e não exalam

Quando leio, não sou eu quem lê
É a minha vontade em fazer de conta que gosto de não fazer o que faço sempre.

Escrever o que leio e ler o que escrevo e imitar quem leio e aprender a ler e entender
Que um verso escrito já não pertence mais a quem o escreveu

Eu sou eu e não me pertenço
Minha poesia é minha somente nos instantes em que está em mim
Após escrita eu sou mais dela e ela a dona
Porque não sei uma delas sequer em memória

Mas elas são certas de si
E existem sozinhas
E saídas de mim
A elas não sou mais ninguém e nada

Não me pertenço
Elas não me pertencem
Mas elas são a minha maneira
De ser eu mesmo sem sentir-me dono
Nem delas, nem de mim, sendo assim
Não pertenço.
Mas estou vivo dentro delas
E elas já não mais em mim.