sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Talvez nem queira ser


Talvez fosse poeta
Se fingisse sentir dor
A dor que deveras sinto

Talvez seja poeta
Pois não sinto a dor
Que deveras minto

Talvez serei poeta
Quando parar de sentir
E de fingir que escrevo
O que minto
Que sinto
Muito
Escrevendo sobre o que penso
Que sei ou não
Que sinto ou omito

Talvez nunca serei poeta
Enquanto em mim restar ferida aberta
Talvez nem queira o ser
Basta-me sentir...

O que sou?
Só escrevinhador.
Seja de dor
De amor
De fingimento
O que for.

Deveras, pouco me importa!

domingo, 5 de agosto de 2012

O corvo do abismo




Esta noite deparei-me novamente
Com a fronteira, com o abismo.
O lugar onde perambulam fadas
E garotas pálidas de aparência fantasmagórica.
Não havia maritacas barulhentas,
Aquelas que nunca se calam..
Mas uma ave dita de mau agouro assentou-se próximo
E em silêncio me olhou como se fizesse um convite
'Um sobrevoo por sobre o abismo?'

Seus olhos proferiam palavras mudas,
Ecoavam em meu interior.
Um sentimento de negação,
Do saber que não deveria, conteve-me
Num instante se formou nítida a imagem
A ave negra finalmente me encarou e disse :

'A ti não houve Lenora
E hoje aprecias a aurora
Levanta-te logo cedo
Em preces que te abafam o medo

Não te houve Lenora
Porém sentiste e choraste a partida
Buscando inutilmente a calma
Tentaste a cura lambendo a própria ferida
Mas a saliva não lava a alma

Não te estendo as mãos porque não tenho
Não te ofereço uma asa pois ambas me são necessárias

Aproxima-te então e pula comigo
Abandona tudo e encara o abismo
Mas te lembres que não tens asas
E que não voltarás para casa
E tampouco verás aquela que para ti
Foi como Lenora

Não terás mais a dor da lembrança
O sentimento de vazio da desesperança
Conceda-me esta última dança
Mas lembra-te: logo após, nada mais, nunca mais.'

E a ave prostrou-se diante do abismo
Virou-se para trás e fitou-me brevemente
Sem insistir, emudeceu e alçou voo sozinha

Virei-me para os lados
Percebi que não mais havia ali
Fadas ou garotas pálidas

Quando me voltei para ver o corvo
Não havia ali nem corvo ou abismo
Apenas um horizonte árido e um fio d'água
Acompanhados de um gralhar constante em meus ouvidos:

'Nunca mais!
Nunca mais!'

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Escrevi em algum lugar


O que era mesmo que sentia?
Devo ter anotado
Em algum lugar

De quem era mesmo que eu gostava?
Não me lembro
Devo ter escrito em alguma árvore

Quem mesmo eu era?
Talvez me lembre ainda
Devo estar escrito em algum lugar

Anotei,
Em algum corpo que toquei
Num copo de onde bebi

Eu devo ter escrito
Em algum lugar...

sábado, 21 de julho de 2012

Efeito das letras


Mover-me portas a dentro
A convite de um poema
Encorajar-me nos pensamentos
Aceitar a falta de um tema
Tremores impedem ação
Temores repelem reação

Abra-se dicionário
Desmanchem-se rimas

Açoito uma folha ao ponto de marcá-la
Tão profundamente quanto o tamanho da revolta

Circundo-me louco
Como um cão danado
A correr, dando voltas
Em torno do próprio rabo

Fechem-se livros
Que não lerei mais nada
Quebrem-se penas
Que não escreverei palavras

Cuspirei letras sobre superfícies brancas
Explodirei minha alma
Para que se derrame em chamas
E arda as mãos de quem queira alterar-me
Seja eu, uma oração
Sequer uma vírgula

Meto-me portas afora
Monto o cavalo de Álvaro
Que me conduz freneticamente
Ao lugar em que desejo estar
Onde certamente não sou um universo pensante
Mas vivo em carne osso
No efeito das letras

Ipês



O florescer dos ipês revela
A esperança de que o feio
Um dia se torne o belo

Traduz a fé em um calor
Que existe mesmo num frio
Doloroso, melancólico e triste

Um céu repleto da nitidez azul
Que poucos percebem
Concentrados no desconforto

Sinto necessidade do frio
Da dor nos ossos
Do queimar da pele
Do pingar do nariz
Do anseio da primavera

E que prazer teria eu
Se não me fizesse triste
Para admirar a alegria
De galhos secos e coloridos
Dos tais ipês todos floridos